domingo, 19 de agosto de 2012


Vivo tão perdido
De ser tão encontrado
Que a realidade parece-me sempre
Uma farsa terrível
Ou extremamente cómica e divertida.

Olho-me ao espelho e vejo-lhe potencial
Mas assim que me não vejo
Cai-me o mundo em cima
E esqueço quem vi ao espelho.

Tem de haver reflexo
Num amigo ou amante
Para que quem no espelho vejo
Possa consistentemente existir em mim.

De resto,
Esqueço-me de tudo
E volto à essência que se lembra de mim.    

Atrás a porta
E no descuido
De por além
Conhecer
Desaparecer dentro de quem se é
Inventando.

Por vezes me pergunto
“porquê”?

E logo me respondem o tempo e o espaço
Dizendo-se meus conhecidos…

É então insensato
Continuar minha interrogação.

O que tenho,
É culpa minha
E o que sou
Consequência disso.

Viver, mais que
Encontro,
É, para mim,
Infelizmente,
Procura.

Portanto, adiante,
Viajante da existência,
Há outros mares, outras terras!   

Junto a ela
Sorri o mundo
E a pedra de meu peito
É águia planando.

Só, só isto.

Sem ela a pedra pesa,
Corrói-me a vida
(à podridão)
Fazendo de mim
Uma máquina de fuga.
Fuga que se deduz em arte.

Que escolher:
A arte ou o amor?
Já que a vida parece impossível
Um gajo tem de se condenar a uma das duas.


Foge minha filha
Que fujo eu contigo.

O segredo do nosso sangue
Tem de ser preservado
Para que invés de vivo
Seja louvado em arte.

Somos deuses e os deuses
Não podem pisar o mesmo chão
Que pisam os outros.

Temos de guardar este nosso deus
No peito, no coração.

E no deslumbrar de um vindouro novo dia
Os soltar, soltar nossos deuses.  
Feira de internacionalidades, fundo aprumo em socialidade. Em compasso de tempo vou reagindo às palavras que se me não dirigem, digerindo-as em conclusões instantâneas que renovam um outro ser a ser. Pentagramas de uma espiritualidade passada enganam quem olha com pressa e as asas dos do chão olham danadas as pedras que se arrastam, esperando apenas pelos semáforos. Houve um tempo de dogma ou tabu, concluindo-se nisto que hoje é tempo de tudo que reflecte o nada que se tornaram nossos impulsos a deus, isto é, impulsos orgânicos, tanto de violência, amor ou sexuais. Vive-se certamente um niilismo decadente que consome tudo em frente e quem olha para trás se logo atrasa e tropeça na hedionda incaracterização que se tornou sua vida. Em parte, para a compreender, tenho que me entorpecer nas engrenagens do sistema. Mas compreendido o aviso logo se me acalma o espírito sabendo-se infinito. A vida também tem direito à morte, ao descanso. Talvez ela queira morrer, não sei, ela é um deus, eu um mero humano. Contactam-se vigílias nocturnas para saber da delinquência que elas mesmas trazem. Falam-se a entes queridos esquecendo-se o afecto por eles pois o esforço os ultrapassa. São guerras e mais guerras que atravessam o mundo diariamente, constantemente. E continuamos na sombra desse sol de verdade, sorrindo-nos perdidos, fingindo a vida pois ela se quer sofrida. Foram tempos e tempos foram. O chão que se pisa é como virtual, e o além da internet ou dos filmes em 3D parece tão mais convincente. Amanhã logrará o tempo do encontro, até lá vou sorrindo a isto, porque na verdade ainda é, a cima de tudo, vida, a minha vida.   

Cantorias de meu sonho rogam-se aos céus, nobreza medieval em que o sangue é imagem e a arte paisagem real. Metalurgias emocionais e catarses fabulásticas! Memórias atractivas e conquistas atrasadas por cerveja. Nobre a espera que atinge o horizonte. A criança desmedida da vida atinge a morte a meio folgo e vive depois certezas nulas.
Caluda aos reis e fala o mendigo da esquina! Preparar os cavalos para a cruzada do Niilismo onde todos irão ver o nada que são para finalmente poderem sentir que podem ser tudo e esquecer e esquecer.

Querem que um gajo salve o mundo!

Querem que um gajo faça o que eles querem!

Querem coisas enquanto eu estou bem aqui a vos ver com demandas, ideias e ideais enquanto dois cães vagabundos se matam na rua. Fervam vossas mentes em estereótipos de boa conduta enquanto eu vivo o vento onde todos os meus antepassados foram e serão.

Cantando e jogando a surpresa
Como cabra cega
Da certeza de horizonte.

Deixar morrer
Para quando viver,
Viver realmente.

A nossa fraca mente não aguenta
O nosso sonho
E assim se envereda pelo espírito:
Certeza do coração,
Dúvida constante da razão.

Superlativa ambição
Que nasce da completa incapacidade
Para lidar com esta vida.

Corrompo-me aos poucos
Mas me mantenho a criança sã,
De sempre,
Embalada por minha voluntária tristeza.

Tu sorris
E vês por ti passar
Esquecida
A criança de teu sonho,
A caminho da ilha dos espíritos onde,
De tanta vida,
Se guardam todos mortos à actualidade.

Quem sabe dançar o eterno infinito
Acha deveras pequeno dançar o actual.
É em fins de tarde como esta que eu realmente me sei filho de deus. No sentido de conseguir vislumbrar a divindade do que experiencio de momento. Há tanta beleza neste mundo que por vezes não sei como é possível senti-la toda num só instante que continua. A ordem de deus é evolui. Ouve o teu coração e sê. E assim vou sendo, mais na arte que na vida mas vou deveras sendo. Porquê a negatividade que por vezes me cativa? Sou um bicho com mente de humano que, para se livrar dela, se evoluiu ao suprassumo da intelectualidade para finalmente vislumbrar a tão prometida espiritualidade. Sou santo mas sou também um corpo que ainda não morreu. Para que essa divindade se me aguente tenho de satisfazer também este corpo. Esse bloco de materialidade que guarda toda a merda deste mundo enquanto o meu espírito sábio voa, muito além da terra, em sonhos de plena merecida eternidade. 

   Partindo do princípio que somos bichos e inúteis, um tanto, ao universo, é formidável a atenção egocêntrica a que nos prestamos dia-a-dia. Eu, acima da maioria, reconheço-me como um mestre do egocentrismo e egoísmo máximo. Sei e não sei, ao certo, o que me leva a este fim mas a verdade é que, por mais que tente mudar, não consigo deveras mudar. Viver é um esgotamento por si, assim. Tudo o que não responda à visceral demanda de novidade que tenho é-me um intruso e uma, por vezes, ofensa ou humilhação. Recorro ao meu tempo, humildemente para comigo, ferozmente para com os outros. Meu olhar é necessariamente agressivo e insensível quanto mais me sinta ameaçado, directa ou indirectamente, pelos demais. Vivo prostrado no meu único conhecimento, que a meu ver, de tão único, se torna afinal universal. Mas o universo, como a arte, não tem qualquer dó pela condição física do espírito humano e assim quem assim pensa, como eu, sofre e sofre um pouco mais. Ironicamente, penso que quem mais se “safa”(é bom) nesta maneira de ser é quem muito mais se via(/vê) a (querer) ter uma vida comum, normal, coloquial e social.
Que deslumbre a alma simples! Aquele que aceita e vive, esquecendo o “por resolver”, sabendo-o não de sua conta, pois claramente é representante doutro patamar.
É realmente fascinante o quanto, olhando esta gente ao meu redor, me imagino entre eles, sendo um deles! Mas devido à minha superlativa consciência nunca consigo me coibir a apenas ser sem disso me aperceber. Nasci com uma alma simples mas esta se furou com o amor e depois, de tanto vazio, comecei a encher-me de tudo do mundo. (Bom, mau, o que é isso para uma alma simples?) Assim, hoje, estou cheio de merda e diamantes – numa mesma e única casta, cá dentro – todos não-eu e lá no meio, deambulante, partículas de minha antiga simplicidade juntam toda esta complexidade num só, que sou eu actualmente. Sou então um indivíduo vazio pelo amor e cheio pelo mundo. O que daí advém é um ser com demais consciência de seu próprio e devido absurdo.  

"quotes"


The modern mind is in complete disarray. Knowledge has stretched itself to the point where neither the world nor our intelligence can find any foot-hold. It is a fact that we are suffering from nihilism.     Albert Camus

All roads are blocked to a philosophy which reduces everything to the word “no.” To “no” there is only one answer and that is “yes.” Nihilism has no substance. There is no such thing as nothingness, and zero does not exist. Everything is something. Nothing is nothing. Man lives more by affirmation than by bread.              
Victor Hugo

Nothing requires a greater effort of thought than arguments to justify the rule of non-thought.        
Milan Kundera

He who fights against monsters should see to it that he does not become a monster in the process. And when you stare persistently into an abyss, the abyss also stares into you.                          Friedrich Nietzsche

"The beginning of a revolution is in reality the end of a belief."
- Gustave Le Bon

Oversocialization can lead to low self-esteem, a sense of powerlessness, defeatism, guilt, etc. One of the most important means by which our society socializes children is by making them feel ashamed of behavior or speech that is contrary to society's expectations. If this is overdone, or if a particular child is especially susceptible to such feelings, he ends by feeling ashamed of himself...        
 Unabomber

sábado, 11 de agosto de 2012


SERÁ?

…beber a solução?

Bem, para preservar
É o segredo de muitos intelectuais
E índios…

Sou uma raça em vias de extincção.

Encarno os índios,
Pretos escravos
E os intelectuais,
Por sensibilidade,
Mal tratados.

Viver, hoje,
Só o além.
O viver além.

Se é isso que tem de ser
Assim eu serei.

Falas de Deus
E eu falo de ti
Deusa!

És a minha Mulher!

De ti,
De nós,
Dei à luz um universo imenso e complexo.

Ver-te aqui é uma novidade
E amor que te tenho
Guarda-me ainda em saudade.

Que sorte tive em te ser.

Que belíssima artimanha me pregaste.

Condenado à tua dança
Gero-te palco e plateia
E só tu,
Tu, minha linda, lá danças!

Que é como dizer, vives.

Viver é uma arte,
Tua,
Minha.

Ao longe chovem crianças
E nós sorrimos.

O nosso amor lhes dá asas
E voam elas para longe dos pais,
Para perto do sol.
Onde tudo é e gera calor.

O mundo está amaldiçoado.

Tu sabes e o vives,
Eu sei e o reinvento.

Maravilha é ver-te assim,
Sem mim.
Louca de vida.
Levaste-me para longe contigo
E assim só sei
Ser perto,
Perto de mim.

Resta-me a honra e o desejo.
Crer no futuro sem o querer.

A arte é a minha terra.

Gero-lhe chão e tu céu.

Adoro te ver viver.

Adoro que sejas tu a viver esta vida.

Eu te olho
E amo a cada momento
Mas me não chames
Que tropeço e engulo
O teu mundo no meu.

O que eu quero é morte,
É fim.
Pois só ela eterniza a vida.

Vivo a cada momento a eternidade
Pois não aguentei a longevidade de minha morte.

Nunca pensei tornar-me assim.

Mas tu és tão bela e viva
Que mais vives por mim.

A aura da vida me iluminou
E foste tu quem a mostrou.

Louca vida,
Vive-a feliz comigo
Mas sem mim.   

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Que tarde. Que tarde de sonho. As mentiras do meu corpo aqui não chegam. Aqui vou de mão com o meu espírito, embalado pela ressaca de 20km feitos em bicicleta e bilhete comprado na primeira cerveja. O sonho, o sonho se lança em ejaculação de loucura, frenesim de desejo quebra-me a razão, queimando-a em intuição. Largas demandas do mundo e a ave, lá no alto, sorri a inconsciência das ordens cá de baixo. Chama. Chama quem de ti faz nascer asas e pila de elefante. Puta mulher menina sabes que te amo. Faz de mim o teu consolo que eu construo a vida, passo a passo, com a calma de quem de tudo sabe nada.
Já não tenho qualquer esperança. No entanto aprecio o meu presente como se a morte me já chamasse. E, para quem não sabe, a morte é a que faz as coisas serem eternas.

Favorecer a honra à dúvida

Viver despegado tanto de amor como de família, terra ou sequer caminho. Andar como o vento, voar e ser perdido, e encontrado, nisso. O chão ser furado e as nuvens a sombra do herói. Mascar sofrimentos do passado e cuspi-los para a sarjeta. Ignóbeis materiais desprovidos de espiritualidade… A única coisa que tens em tua posse é o isqueiro, o resto te dá a vida e o coração. Sonho de criança a crescer, a crescer em barba de Homem. O reconhecimento é nulo, és tu um outro, outro ainda que Outro, és O, és Tu finalmente! O sol da manhã te promete o nada que te sempre brotou o tudo. Caminho a caminho, santa profecia, és tu hoje Real.
A poesia é a arte que mais requer que te esqueças de tudo o que sabes e te deixes levar pelo nada.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"Agora corrompo-me o mais possível. Por quê? Quero ser poeta e trabalho para me fazer vidente: você não está a perceber nada e eu também não lhe sei explicar. Trata-se de chegar ao desconhecido pela desordem de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes, mas é preciso ser-se forte, ter nascido poeta, e eu reconheci-me poeta. A culpa não é minha de maneira nenhuma. É errado dizer: Eu penso. Deve dizer-se: Eu sou pensado. Desculpe o jogo das palavras. Eu é outro. Tanto pior para a madeira que se descobre violino, e que se danem os inconscientes, que discutem sobre coisas que ignoram por completo!"

 Arthur Rimbaud
correspondência, a Georges Izambard, Charleville, Maio de 1871 ( excerto)
in ABCedário do Surrealismo

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Fortaleço-me no som do vazio que é o sussurro de Deus.
O tempo não existe e no entanto existo eu.

A me enlouquecer, breve tempo no eterno da ressaca burocrática, pois aqui, o descanso faz-se a andar de bicicleta. Vejo o mundo passar como se fosse mentira. E verdade que ele é… No entanto, tanta coisa fustiga meu corpo para sair e não lhe encontro saída possível. Quem é o tempo?  Abraçadas à poeira, estão todas as minhas amadas a quem ensinei a estar sós. Reconheço um princípio de fim e tudo que agora é morre a cada deslumbre que lhe lanço. Fosse alguém meu amigo e eu seria outro. Pudesse eu ter amigos e esses me terem por perto enquanto invento precipícios, terramotos e furacões.
A ordem é outra. Que na força desta, essa, consciência tudo morre e vive e chora e sorri a cada momento, instante. Pudesse eu ser calmo e resoluto em corpo, perscrutando a realidade como se dela verdadeiramente fizesse parte. Ai, que morte sombria me acorrenta o espírito e me deturpa o corpo em fera enjaulada. Cada tempo a seu tempo e minha demorada morte será o beijo de deus num qualquer eterno presente do futuro. Amar-me como se fosse eu o dono disto tudo… Que miséria estupenda e deslumbrante!. Basto-me, e canto a glória do meu tão natural encontro comigo e o universo para sempre.

Em arte o peso é outro. É preciso se restringir a si e reconhecer que se não tem fim pensando. A ordem não vê horizonte mas sabe o infinito e com isto o artista vai além de si, buscar os princípios que o levam a contemplar este estado de espírito em férrea vida física. Como se pode falar de deus se o se não viu ou vê? Ora, mas se O se sente… Vá lá. Deus existe, de uma ou de outra maneira, e ele é somente a constante e nunca reversa criação. O que se cria jamais se pode destruir. Quando se cria algo as ondas deste mundo, e dos outros, se logo familiarizam com tal. Podem não a conhecer por ser “nova” mas sempre vem de algo, não é verdade? É filha, prima ou afilhada de já algo que existe. Tudo continua . TUDO. Até a vida mais mísera que vislumbra esperança, consegue abrir porta para o depois de morta. A loucura é a saída para quem demais deseja a vida. Não há nada que a possa matar. Se se pode matar a vida, é só porque quem a tem não a merece. Há além. E essa é uma certeza minha. É nova, tem uns meses, mas é verídica porque a sinto. Tudo o que se sente existe pela simples razão de que se dela tem consciência e vai além do “senão” alheio.

sábado, 4 de agosto de 2012


Aos passos minguantes
Amada nada por Lisboa
E eu entre o ela e o mundo.

Concreto para os outros
Sinto-me explodido
Pelo à deriva da pedra preta.

Por enquanto reina a beleza,
O sol de fim de tarde
E toda a não amargura
De eu a não pensar.

Que não consigo me aperceber de mim
Quando o mundo ou ela me querem.

E no precipício
De me não sentir
Em controlo de minha vida
Vivo a tremenda angústia
De mesmo assim
Existir e ser eu.

Entrou em conflito,
Meu mundo com o mundo.

Deixo as barreiras deitadas,
Espalhadas por aí.

Torno-me de novo
A ausência que sempre quis.

Tenho vontade de largar voo,
Ou correr até cair,
Qualquer coisa que tenha fim.

E, no entanto, aqui,
Estou aqui.

A vida é demasiado incoerente para comigo.

Simplesmente a não entendo.
Então me resigno
E me finalizo por aqui.

…é a única forma
De manter a arte/vida a brotar,
Brotar de mim.

Que culpa tenho eu de me deixar
Influenciar pelo clima do mundo?

É deixar passar,
Que o tempo passa.

Amanhã melhor?

Já o não creio.
No entanto mantenho
Uma qualquer fé misteriosa.
Uma que me sempre surpreende
Por mais em baixo que me sinta.

À noite o meu norte,
E na profecia da vida eu durmo.   

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


Enquanto as flores brotem
Eu brotarei!

Fogo de asas de garganta alta.
O azul do céu
Não é nada
Ao meu violeta florescente!

Congratulo a águia,
Minha amiga,
E santo o dia
Em que parti desconhecido
Rumo ao conhecido desejo meu.

Há trevas por aqui.
Trevas densas que
Apesar de sorrirem
É sempre, ou quase,
Um sorriso pobrinho.

Adiante!

O Além me chama!

Conversas com deus
(Que sou eu dividido)
Viram-me para o cosmos inteiro.

Será que me ouves ó Neptuno?

Plutão, tu, apesar de mais longe,
Sei que me escutas a cada instante o coração.

Afinal, não sou eu escorpião?

Vou queimar as memórias de papel
E inaugurar o presente limpo e imaterial.

Renascer dos frutos incompreendidos
Pois distanciados do antigo meu eu.

Lembram-me “Elas”
O meu desígnio.

Ser mãe de tudo isto
E pai Delas todas!

Tem-se de esticar a vida
Quando ela, escassa,
Se revolta à nossa racional consciência.

A técnica é outra hoje.

Hoje existo-me.  

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

"A mulher é o ser que projecta a maior sombra ou a maior luz nos nossos sonhos."

Charles Baudelaire

terça-feira, 31 de julho de 2012

Surrealismo

"O mais simples acto surrealista consiste em precipitar-se pela rua, de pistola na mão e, disparar ao acaso, tão rapidamente quanto puder puxar o gatilho, em direcção à multidão."

André Breton

sábado, 28 de julho de 2012

O amor à distância gera mitologia, arte, fantasia e por fim loucura, loucura criativa(positiva). Viver torna-se num trazer esse amor onírico para a terra agreste do presente, e da acasalação entre os meios se continua a mitologia - cada vez mais longe da verdade que foi, cada vez mais perto da verdade. A sede desta pessoa condenada é criar e compreender o seu demónio. (No fundo é um ser muito estúpido como um cão que quer morder a sua própria cauda.) Viver se torna uma missão não de lidar com o presente mas de o ligar ao passado para espaçar o futuro. A ironia disto tudo é que é o mesmo que se inflige ao primeiro passo, de resto o leva a arte. Concordando com a realidade, observa-a como fonte de vácuo que se conecta ao tempo. Aquele tempo que persiste e sempre existe no coração de quem cria. O único viver hoje possível e capaz de nobreza é o de artista que cria, recria e compreende o seu mundo - o único hoje que o liga ao mundo dos Deuses. Aquele que sempre foi, sempre será: a Natureza. Passando por aqui e por ali, seu pensamento sempre se pesa e poisa em si. Não há espaço real para quem cria pois ele se matou, vive morto, fruto da impossível tarefa a que se propôs - saber a verdade por detrás do que sente.
Podem acontecer muitas coisas na vida que nos distraiam do nosso caminho, no entanto não há coisa que mais desvirtua um homem ou uma mulher que a resistência. Ela é a grande culpada de todo o infortúnio humano. Não resistas, aceita. Aceitando puderás tanto a ti e aos outros mostrar o que sentes perante o que te (antes) causava resistência. Falar a solução? Tão pouco quando dentro da cabeça de quem fala não há fala(interior). O silêncio é nobre e essencial para quem se muito fala e entende. Há que ter cuidado com o que de dentro vem para fora porque afinal é de dentro... É preciso ser sábio dos seus instinctos e pensamentos, emoções para os poder brotar para fora com tranquilidade. Viver é uma arte para a qual poucos têm habilidade.
Há que dar tempo ao tempo.
Todos nós sofremos
uns mais outros menos.
O que interessa é o quanto desse sofrimento conseguimos levar para a  LUZ.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

I see dead people.
As coisas acontecem. Nada se pode denegrir pois está feito. No feito se queima a ideia e no ideal nasce uma qualquer chama que inova tudo à volta. Ao canto um chão e no entanto voo sem qualquer pousio onde me ver, se quer sonhar. E tão pouco me esqueço... Além. Passo firme de quem não tem. Toca o acento da palavra que me dizia algo mas caí entretanto e sofrer parece de menos para a consciência a que cheguei. Além. Haja tempo para glória aparecer. Se renova o dia com a noite e tudo chora e sorri como madrugada da vida.
Subo as colinas
Que chamam a vida
E só vêem ventos
Me comer a esperança,
Levá-la para longe.

O norte não me alcança
E sigo um rumo pré-definido.

Há quem sonhe
E há quem viva.
Difícil os dois,
Difícil os dois…

Seguir o encanto
De quem contesta sem encanto?

Vida confusa.
Que confusa vida.

Destino traçado.
Quem anda em prol
Dos outros
Nunca se alcança.

Alcanço-me parado,
Meu sonho futuro e passado,
Pois me não defino.

Há quem vá e encontre algo
E há quem fique e se encontre.

Eu, nenhum dos dois.

Espero-me quando vou,
Voo quando só por aqui sou.

Deduz-me em ser humano…

Poderias?

Não creio.
Encanto preciso
E no entanto escureço.
Não porque o queira
Mas assim me quer o anoitecer.

Quem fica sem mim
Numa noite destas?

A lua é que não!

Concordo com a vida
E o espírito santo
Do silêncio onde
Tudo desaparece,
Tudo acontece.

Além de mim
O propósito por fim.

Vão-se as chamas
Ficam as cinzas.

Enaltecem-se as sombras.
Geram elas nuvens
Que chovem-me em cima
Diamantes, sonhos, curiosidades…

Não sei, sabes?

Gosto de ser um fantasma
Que observa e sente tudo isto.
E, no entanto,
Actua meu corpo e mente
Nesta ânsia desvairada
De tentar fazer da vida actual
Uma coisa digna de ser vivida.

À parte fica algo.
Sonhos, pensamentos
E obras… Poucas
Mas essas, nestes tempos,
São as que resistem ao tempo.

Esquecemo-nos dele
Pois ele só é presente.

Amanhã virá?
Em paz
Concordo o tempo
Com o intemporal
Ser que pareço ser.

Reparo que vou nascendo
E morrendo
Nesta jornada minha.

Não sei quem me vive,
Se eu,
Se o mundo,
Se o Espírito da vida.

Resigno-me a observar o meu viver
E me deslumbrar com esta coisa curiosa
De se estar vivo
Vendo esta presa vida
Com um sorriso de criança
Reflectido, no espelho, em
Devaneio de ironia adulto.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Estou confuso. Quando me ligo a alguém que por alguma razão não convém, esqueço-me dela e de mim e só reajo ao absurdo da nossa imensa divergência. Quem és tu e porque me a ti falei como só nós dois a vida? A intimidade e os afectos desorganizam-me da ténue linha que me une à vida. Vida que se quer missão, que se quer dura e recta pois se quer que realize sonhos em vida mortal. E me aparecem incoerências em pessoa que me desconhecem metodologia. Me fazem incontrolar-me em incompreensão. Falámos de coração e desapareci em nós. Tenho que voltar a mim, tenho que voltar a mim... Sou só e somente e só assim me governo nesta vida. Ela é quase parecida com a vida mas lá não chega. Talvez e só talvez eu conseguirei chegar-la. A essa... à VIDA. 
Quando a porta demais aberta...
O que fazer?

Meu espírito se expande
e se confunde no outro
criando-se-me uma confusão dos diabos
que mal ou nada sei controlar.

Vida minha...
Vida que vive presa pois concentrada.
E na concentração, por vezes me descontraindo
me perco em incongruências de sub-conscientes
penso que além de mim.

Pois de afectos me afeiçou-o
a uma pessoa
e me intimo dessa pessoa
perdendo-me nela.

Que é de mim?

Escondido dos outros...
quando me evidencio num,
logo me perco dele e de mim.

Como vivem algumas pessoas e
como eu vivo...
e como nos afeiçoando
deixo de conseguir me levar a sério
ou à vida.
Torna-se tudo
num não sei quê de absurdo e incontrolável.

Não sei,
sei lá.
A minha mente segue linhas e eu as sigo,
e eu as sigo...
Anoitecem as pressas e todo o ser alado brilha de olhos
Encontrando o outro em mancha de sorriso apaixonado.

Enquanto, por enquanto, o tempo se passeia de trela pelo jardim da casa,
O horizonte lindo fornece certeza de infinito.

A gaivota voa com algo no bico,
Para seu ninho presumo.
E suas amigas brandam o seu grito de vitória:
Mais um dia de vida!

Presente.
Pelas trevas roga-se o coral e no desaparecer do betão uma onda se eleva aos céus colhendo os escolhidos e matando os espectadores. Em prosa do momento há pressa mas na poesia uma maior sabedoria se evidencia. É o ciclo do vento, marés universais. Choram e riem quem no cimo da onda olha o horizonte para onde a onda os leva. E no começo desta nova profecia tudo é lavado, encontrado simples e leve, que só a alma existe agora e essa por mais que sábia nunca pesa. Estamos portanto em tempos de profecias.
"You may fail many times in life but you're never a failier until you refuse to try again." - Evil Knievel

terça-feira, 5 de junho de 2012


Que na sombra do amor
Nasce o sonho da vida.
Luz nascida do de novo acreditar.


Amanhã…que desperdício.
Acontece hoje e o ar, o vento e o sangue
Se inauguram a cada encontro que reconhece a morte.

Vive-se a eternidade então.
Sonho de criança e as mãos calejadas
O bastante para construir e erguer o sonho menino.

E em noite de lua cheia
O mar encanta-me estas linhas fazendo de mim
Um veículo para o sem fim.

24.
Pensei hoje nisto…
1/3 de minha vida
É o que, em parte, significa 24.

Mas não reconheço o tempo
Já que a eternidade é a cada momento.

Sorrio ao próximo
E o acredito
Porque é como sorrir a mim.

Nestas paragens retorno a casa
E vejo que já não é.
Sinto-me aqui preso, inseguro
E onde me chamam parece ser minha actual casa.

Concedo-me ao nervosismo e ás potenciais
Incoerências da realidade
Pois já não suporto a fantasia infantil do meu ego.

Que sou um universo, muito bem.
Mas não me já basta ouvi-lo e vê-lo ser
Nesse mundo cósmico
De profecia por outro fazer.

Que essa profecia é tão vasta e meu tempo aqui
Tão escasso…
Que quero vivê-lo com o devido respeito e coragem.

Acaba o sonho da mente,
Porventura começa o do corpo.

Sossego quem de mim
Me quer ver preservado,
Sempre acreditando-me eterno...

Não o sou.
E nisto me contemplo como veículo.
Não mais fim mas apenas um meio.

O fim é dos deuses.
Eu apenas sou humano,
E quero sê-lo.

Vim para aqui de braços abertos
E levei na tromba.
Depois fechei os braços e vi que cá dentro
A filosofia dos braços abertos funcionava.
Mas saltando de uma e outra pedra voadora
Cansei-me de não sentir minha própria e
Devida gravidade.

Hoje não tenho fim
(talvez principio)
Porque já tenho em posse o Meu fim.

A morte é um bom aliado
Para quem tanto acredita na vida.

Nivela as montanhas da alma
E as estica em planícies de horizonte.

É coerente a morte.
É um deus justo.
Quem sabe, o único.

Talvez daí um bom aliado para quem
Em tudo acredita:
Acaba por permitir realizar tudo!

Mas tudo nunca nada é
Se não entendermos o nada que o tudo é
Com o amor.

Outro deus, o amor…
Claramente o oposto da morte.

De justiça o amor nada tem.

O amor acredita.
Nada, a meu ver, realiza em terra,
No real.

Do encontro entre o amor e a morte
Honra-se e se realiza um novo antigo universo.

Contemplam-se as feridas e o cancro
Com respeito e compaixão,
Nem uma pinga de medo,
E tudo volta ao supremo vital.

A morte nada pode dizer ao amor
Nem o amor à morte.
E é por isto que, para o ser humano
Que às duas concede o seu espaço,
A vida mortal
É a cada momento imortal.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

...só vejo Super Heróis e Super Estrelas! Onde andam os seres humanos?

terça-feira, 8 de maio de 2012

Deja que el mundo te cambie, y podrás cambiar el mundo.   -     Che Guevara
Aquele que melhor viaja é quem sabe quando regressar.  - Thomas Middleton
I was born in jail.  -  Stokely Carmichael


(em resposta a um jornalista que perguntou se ele não teria medo de ir para a cadeia)

visto no documentário: The Black Power Mixtape 1967-1975 - (2011)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sabedoria Ameríndia







Não te deixes distrair pelo tumulto dos homens, pela sua busca insatisfeita e desordenada. Eles são como o animal preso na cerca, que anda às voltas sem compreender e procura uma saída que não existe.

Aprende a permanecer livre. Não sejas prisioneiro de ideias feitas, pois estas só trazem desastres e confusão. Não te obstines na escuridão, pede à terra viva a sabedoria e a força.

Houve um tempo em que a Natureza fortalecia e instruía o homem, curando as suas feridas, e lhe dava a força para viver. O homem sentia-se pleno de compaixão e de amor maternal pela terra. Sabia que o coração do homem afastado da natureza seca e acaba por se tornar duro. Esse tempo não desapareceu. Está dentro de ti, é indestrutível. Basta modificar o teu olhar sobre as coisas, fazer calar o tumulto do mundo e recuperar a palavra do coração.

Tu não estás separado dos outros, encerrado numa solidão mortal, com angústias e doenças que só a ti te pertencem. Volta-te para os outros, aprende a olhar de outro modo o mundo que te rodeia. Experimenta pensamento harmoniosos por todas as formas de vida se desejares recuperar a alegria, pois és o irmão e a irmã de todas as criaturas.

Os índios que vivem perto da Natureza e do mestre da natureza não vivem nas trevas. Sabes que as árvores falam? Falam entre si e falam contigo se souberes ouvi-las.

O homem e a natureza pertencem ao mesmo circulo de transformações e recomeços. Um é o reflexo do outro. Quer seja animal, vegetal ou mineral, trata-se do mesmo mundo, do mesmo corpo vivo, infinito e eterno.

Tudo passa, as horas, as nuvens do céu, a vida dos homens, levadas do nascimento até à morte. Não te prendes à cronologia afectiva das coisas. É uma maneira muito má de ver o mundo. Faz de cada segundo uma experiência enriquecedora, sem te inquietares com o tempo que foge e os dias que já não regressam. O presente é a única coisa que não tem fim.

Antigamente a floresta imensa cobria tudo como um único espírito. Depois veio o tempo em que os homens dividiram o espírito e o despedaçaram como a um animal de caça, quebrando a harmonia da natureza. Foi assim que deixaram entrar a dor no mundo.

Quando se desce muito fundo no interior de si próprio, desemboca-se inevitavelmente na imensidão do mundo. Pode-se facilmente tomar o lugar de uma árvore, de uma montanha, de uma folhagem que respira, tornar-se o voo do pássaro ou o perfume de uma flor. Tens em ti o poder de experimentar as possibilidades espantosas da natureza, pela experiência interior que nos leva ao centro de todas as coisas.

Não consideres a natureza apenas como um quadro no qual te podes expandir, curar as doenças da alma e do corpo. A natureza não é exterior ao teu espírito, não se trata de um mundo diferente, afastado, difícil de compreender. Apesar das aparências, só tens um espírito.

Sê tu próprio, aprende pelos teus actos a criar emoções, sensações e cores, tal como o pintor, como o criador do universo. É dentro de ti que se situa o lugar do maior amor. Não há outro lugar para amar.

Aprende a comunicar com as outras formas de vida - a árvore, o rio, o animal. São as outras formas de ti próprio.

A alegria e o desgosto, o prazer e a tristeza, habitam-nos alternadamente, tal como o dia e a noite, a vida e a morte. Se desejares progredir espiritualmente, considera-as como as duas margens do rio que corre no mesmo sentido.

Não serve de nada fugir de ti próprio, escolhendo a vida desordenada e ruidosa do mundo moderno. A tua dor procura-te, tal como o lobo persegue a presa. Espera-a firmemente, no centro de ti mesmo, rodeia-te de pensamento luminosos, diverte-te com o mundo como a criança, e a dor desfazer-se-á imediatamente como a neve ao sol.

Nunca cessaremos de explorar o universo, tanto dentro como fora de nós. O fim de todas as nossas explorações consistirá em retornar ao ponto de partida e descobri-lo pela primeira vez.

Com os olhos fechados, acha o céu dentro de ti mesmo, e deixa os pensamentos tornarem-se pássaros. Não tentes agarrá-los, como o fazes habitualmente. Deixa-os flutuar, voar e rodopiar sem intenção, sem significado particular. Já não são portadores de um drama, de uma obsessão ou de uma reflexão que os torna pesados, penosos. Giram dentro de ti, leves como o fumo do ouro, felizes por estarem no mundo.

Aprende o desapego, se quiseres vencer-te a ti próprio. Abre todas as manhãs a tua janela, enche-te de luz e afirma com um sentimento de alegria profunda: "Hoje é um belo dia para morrer.".

Observando-te a ti mesmo, acabas por esclarecer as tuas próprias contradições. Os reflexos de defesa desaparecem, e podes aproximar-te dos outros com a tua vulnerabilidade, a tua fragilidade e a tua força, como o dançarino do sol, só com a chama do teu amor.

Quando os guerreiros retornam de uma batalha, ocultam o seu poder dentro de si próprios, recuam-no como se faz ás asas. Largam as suas armas. Aprende a destacar-te dos teus próprios actos. Age livremente, depois torna a ti mesmo de mãos vazias, e ser-te-á concedida a paz. 

O teu próprio espírito não está preso, acorrentado dentro de ti mesmo. Sem que tu saibas, comunica com a natureza subtil dos seres e das coisas. Desloca-se a grandes distancias, fala nos teus sonhos, envia-te sinais que não sabes traduzir. Aprende a ler no teu espírito, e o Grande Espírito do universo responder-te-á.

As tuas paixões lançam-se como voos de dardo, em todas as direcções, e acabam por se perder. Retém-nas e reúne-as numa mesma força, num mesmo espírito, numa mesma vontade, se quiseres que se tornem um poder.

Não te desvies dos obstáculos, não tentes fugir das dificuldades. Quando encontra um rochedo no seu caminho, o rio nunca volta para trás. Contorna-o deslizando, brinca com ele como um curandeiro que murmura e encanta a ferida, ou então salta no meio de um feixe de luz. Aprende a dançar com o obstáculo se quiseres progredir.

As decisões do homem, as suas opções e os seus actos comprometem o universo inteiro. Nada está separado, como mostram os desenhos dos tapetes kiowas onde o universo aparece sob a forma de ritmos, de energias, de ressonâncias. Tu pertences à trama infinita em que tudo comunica. Não tomes nenhuma decisão sem teres antes descido muito fundo dentro de ti próprio.

Por vezes o homem está à beira do abismo, paralisado pelo medo, incapaz de agir, de avançar. Não sabe que a proximidade desse abismo lhe pode permitir uma importante metamorfose. Recuperar as asas do espírito, abandonar-se com toda a confiança e lançar-se no vazio. A proximidade do abismo lembra ao homem que possui o poder de voar.

O sábio é como uma criança que ficasse nas alturas de uma montanha e se divertisse a brincar com o sol e as tempestades. São-lhe concedidos todos os poderes. Ele inventa uma nova linguagem, dialoga com o vento, cria novos universos, fala com os sonhos, imita o voo de um pássaro ou o andar burlesco de um urso. Troça das suas próprias angústias. Observa as suas emoções e sensações como se observam as flores de um jardim. Habita uma nuvem dourada onde a morte não penetra.

Não voltes a pensar no mundo com o cérebro mas sim com o coração. Liberta-te do que te prende ao peso. Torna-te livre e ligeiro.

Os estados de cólera são flechas aguçadas que saltam das mãos e surpreendem o atirador. O guerreiro que possui o arco da sabedoria atira flechas voluntárias, perfeitamente pensadas, sem se abandonar à agitação, à desordem que nasce do medo. Transforma os estado de cólera em canto de vitória sobre ti próprio.

O importante é estarmos conscientes de nós próprios, das nossas relações com as coisas, com as pessoas e as ideias. É não sermos os patetas do jogo e aprofundarmos as nossas relações e a nossa percepção do mundo. Só depois é que começa o real.

Tudo o que imaginares em espírito realizar-se-á se não tirares a luz ao coração.

Curar o outro não é difícil. Basta amá-lo, fazer dele o ser mais importante do mundo, e abandonar-nos totalmente a ele renunciando a nós próprios. 

Hoje temos medo de viver e medo de morrer, porque nunca vivemos o imediato. A reflexão afasta-nos do centro de nós mesmos e arrasta-nos para mundos ameaçadores e desesperantes. O espírito diverte-se a criar o medo, como um actor disfarçado de fantasma, e nós trememos quando ele aparece. Aprende a ver por detrás das máscaras.

Não julgues, não decidas o que é o bem ou o mal sem teres consultado o teu próprio coração.

A violência dos sentimentos impede o espirito de falar com o espirito. O homem transforma-se num demónio para o homem, ao mesmo tempo caçador, vitima e predador. É a presa e a garra da águia, prisioneiro da culpa e do remorso. Não te deixes devorar pelas tuas próprias emoções, mantém-nas à distância e considera-as como jogos de sombras. No centro de si mesmo, é o homem quem comanda o jogo.

Não esperes nada dos outros se tu próprio ainda não deste nada. Segue o exemplo da terra sagrada que dá sempre, que se renova continuamente, que faz renascer e nunca fica com nada.

Aceita a confrontação como sendo uma prova agradável, um ligeiro obstáculo a vencer. Vira-a para ti mesmo, como se fosse um espelho, e nela aprende a desvendar as tuas fraquezas e os teus próprios erros. Tornar-se-á uma dança alegre, e os outros aproximar-se-ão de ti, de mãos estendidas e com o espírito irradiando uma suave luz.

Sempre que deres guarida ao teu irmão, dás guarida à parte misteriosa de ti mesmo, que está no outro. O mesmo acontece com ele, e é então que a amizade se torna comunhão.

O espírito no interior do homem nunca procura o conflito, a violência, a oposição. Ele não declara guerra a si próprio. Permanece para além dos problemas do homem, numa inocência sempre nova, numa luz de aurora.

Nunca permaneças demasiado tempo dentro de ti mesmo. Tu precisas do outro para poderes afirmar a tua fé na vida, comunicar o amor, agir no mundo dos homens. Estais todos no mesmo caminho, à procura do mesmo sol. Reconhece no outro, seja ele quem for, um irmão de aventuras, perdido, e que procura a luz.

O corpo doente é a consequência de uma alma enfraquecida, que duvidas de si própria, atravessada por pensamentos nefastos. O homem-espírito combate a doença com pensamentos de luz.

Porque é que o homem está mais vezes doente que o pássaro, o bisonte ou o puma das montanhas? Porque ele quebrou o pacto harmonioso das forças introduzindo maus pensamentos no seu espírito, a uma profundidade muitas vezes difícil de atingir. Ele precisa de toda a ciência do xamã-curandeiro para mergulhar dentro de si mesmo e curar a alma doente.

A alma desespiritualizada é como o animal cego, privado de orientação, que vai de encontro a todos os obstáculos. Os espíritos de dor têm-na em seu poder como a garra da águia. Os que são fracos, doentes ou foram feridos, perderam os seus aliados. Já não os protege o espírito-guardião, que se afastou deles como a estrela cadente. Para ajudar quem sofre, tens de achar o seu aliado e conduzi-lo de volta para dentro do corpo.

Fica sabendo que nunca se transmite o poder directamente a uma pessoa doente mas sim ao seu espírito-guardião.

Não temas a morte, nem a sua aparência aterradora, definitiva, consequência do terror do homem e da sua ansiedade perante o mistério da desaparição. Os sábios alcançaram estas outras paisagens, por detrás do jogo das aparências. Mergulharam no interior do Rio. Sabem que não há morte mas transformação de mundo.

A ave para se curar oferece-se aos raios do sol, procura a luz, o poder que dá e que renova a vida. Não busques refúgio nas trevas como se quisesses morrer. Expõe-te ao fogo do espírito, que reforçará a tua alma, reanimará a tua vitalidade perdida. O misterioso espírito que está dentro de ti é capaz de muitos prodígios. Tem o poder de trazer a Primavera para o meio do Inverno; é ele que governa as estações da alma.

Para morrer, o guerreiro veste as suas roupas de guerra, chama a si os aliados, os seus espíritos protectores, e a seguir pôe-se a dançar à luz do sol. a morte torna-se uma festa, uma celebração, o canto de vitória do regresso.

A morte não abandona o ciclo da grande Natureza. Deves considerá-la como um eterno retorno.

O centro do homem que medita é também o do universo, o seu principio e fim, o lugar onde tudo recomeça.

A imobilidade do espírito contemplando-se a si mesmo só é possível quando o cérebro descansa, calmo como um lago na primavera. Então, nada mais embaraça a visão, e o universo inteiro reflecte-se nele com o mesmo encantamento e a mesma alegria singela.

Aproveita os momentos de silêncio para te ouvires a ti mesmo, para procurares a nascente profunda, por detrás dos pensamentos inúteis e do obstáculo das palavras.

Evita as concepções e julgamentos assentes na mentalidade humana; não levam em conta os múltiplos aspectos da natureza e os sonhos dos homens. Não traduzem a amplitude real das sensações e das percepções.

No teu espírito residem todos os poderes, como os diamantes numa mina. Só tens que descer lá ao fundo, munido da lâmpada da sabedoria.

Procura a intensidade do contacto com a Natureza até à vertigem se quiseres comunicar com o espírito que se oculta por detrás de todas as coisas.

Tudo o que faz um índio, fá-lo dentro de um círculo. Nos tempos antigos, quando éramos um povo feliz e forte, o nosso poder vinha-nos do círculo sagrado da nação, e enquanto não foi quebrado, o nosso povo foi sempre próspero. Este conhecimento provém-nos do mundo do além, com a nossa religião.

Refugia-te dentro de ti se quiseres ajudar os outros. Todas as forças vivas do universo se cruzam no coração do homem.

A mais alta sabedoria é sempre a do coração. Diante dele, o universo torna-se ao mesmo tempo humilde e protector, e as estrelas põem-se a rezar.

Quem medita ultrapassa os limites da sua memória. Torna-se consciente de si mesmo e do mundo na sua totalidade.

Tudo passa. Os bisontes não voltarão, as cidades dos homens já ocupam agora as pradarias e montanhas. O que resta ao homem livre? O território do seu espírito, imenso, que ninguém poderá alguma vez invadir. Volta a ser o homem livre, torna-te o guerreiro de ti próprio, como eram outrora os nossos antepassados Sioux na época das grandes caçadas.

Durante a meditação o corpo transforma-se no sonho do espírito.

Suprime em ti o ódio e o medo que impedem de se avançar para si próprio e para os outros.

Desce ao fundo de ti e descobrirás sóis esquecidos pelos homens, que todavia nunca deixaram de brilhar. Arranca as cortinas da sombra, contempla o universo na sua infinita sabedoria.

Em todos os teus actos, ganha consciência do instante presente, esquece o peso do passado e o temor do futuro. Evita as questões, as hesitações, as incertezas. Se tens o desejo de ser feliz, não te afastes de ti mesmo, sempre de acordo com o mundo que te rodeia, numa comunhão amorosa e fervorosa do Instante, sem perder lucidez.

Na meditação, o pensamento cala-se para deixar falar o amor. Ele não exige, não julga, não comanda, mas contenta-se em amar, leve como a água que dança ao sol. Ele vê o mundo com olhos de luz.

A acção longamente meditada age de perfeito acordo com o espírito. Ela deixa de participar na confusão do mundo e no seu sofrimento, porque o coração do homem a acompanha tal como a luz acompanha a flecha lançada pelo arco.

Os territórios interiores estão semeados de emboscadas e de armadilhas. São as manias, os maus hábitos, as feridas da alma, nunca curadas. Desce ao fundo de ti, munido da tocha do espírito. Ganha consciência da maravilhosa aventura que te é oferecida: Não houve outros viajantes antes de ti.

Mergulha dentro de ti mesmo e transforma-te no teu próprio curandeiro.

O homem fraco acusa os outros, culpa-os das suas desgraças, mas os seus olhos procuram socorro, por uma ajuda caridosa. Aprende a amar a criança no homem. Ela é a sua salvaguarda, a sua grande luz, uma recordação da antiga felicidade. É com ela que o homem pode recomeçar a viver.

A bondade é uma fonte miraculosa que corre nas veias do homem sábio. Torna-o frágil e transparente, capaz de receber a luz e de reflecti-la. É o espelho sensível, ao mesmo tempo fonte e reflexo.

A bondade desarma o homem violento. Imobiliza-o na sua luz, toca-lhe o coração e fá-lo tornar a ser criança.

A maior parte dos homens temem a bondade, tal como as aves nocturnas receiam uma luz demasiado forte. Precisam da penumbra para se disfarçar, de pôr máscaras e mentir a si próprios. A bondade incomoda-os porque lhes parece uma coisa pouquíssimo humana, mais próxima do anjo que do homem. Lembra-te que a bondade não é uma fraqueza da alma, nem um choramingar no ombro do teu irmão. Tens de compreender o poder da bondade, o seu poder infinito. Quando aparece, a bondade arranca as máscaras e desnuda os corações. O guerreiro que possui o arco da sabedoria utiliza-o como uma flecha de fogo.

Não dês qualquer importância às criticas e aos julgamentos dos outros, porque só traduzem o seu sofrimento, a sua inquietação, as suas hesitações, por detrás de atitudes violentas, e da falsa afirmação de si. Fala-lhes na linguagem dos sonhos, na das emoções simples que perderam, se quiseres aproximar-te deles.

Aprende a combater os teus maus pensamentos, os remorsos, as ideias tristes que envenenam os espírito. Não os leves a sério. A sua fase de trevas não passe de um jogo infeliz, pois a sombra só existe quando se está de costas viradas para o sol. Age como um chefe de guerra. Contorna-os e sê o espelho que lhes reflectirá a luz; então as vestes de tristeza tombarão como peles mortas.

Não deixes que os maus pensamentos paralisem o teu espírito. Ensina-os a dançar.

Desperta em ti a doçura da alma, os sonhos de amor, as brincadeiras de infância. Os guerreiros Cheyennes brincavam com os seus filhos antes de partirem para a guerra. Tinham necessidade de um protecção poderosa, sobrenatural.

Não utilizes o teu corpo como um instrumento de prazer...a não ser que dês a esse prazer as asas do espírito.

Aprende a alegria observando os teus pensamentos e os teus desejos. Brinca com eles como se fossem figuras mágicas dotadas de um espírito, autónomas e livres. Observa o mundo dançar dentro de ti. Só então poderás entoar o teu canto de vitória.

Dá aquilo que gostarias de receber e o Espírito da Natureza encher-te-á de oferendas, em cada dia da tua vida.

A alegria espiritual não se racionaliza. Estende-se para lá de nós próprios como a água do rio que transborda. O homem não decide. A alegria de amar pousa muito simplesmente sobre ele como a ave se empoleira no alto de um rochedo a pique, virada para a luz. Ela encontrou o lugar que lhe convinha.

Muitas vezes somos perturbados e sentimo-nos pouco à vontade perante os outros, como se estivéssemos diante de um espelho. Aceita essa impressão sem experimentar inquietação. Serve-te do espelho para te observar a ti próprio. Aprenderás muito sobre as tuas atitudes secretas, o teu medo dos outros e as tuas defesas.

A avidez é um esforço destrutivo da alma. Querer possuir imediatamente, sem esperar, é a prova de um profundo desregramento, um reflexo de grande desespero. Tens de refrear as tuas necessidades, evitar toda e qualquer precipitação, e aprender a respirar calmamente em cada um dos teus actos, se desejares ser feliz.

O amor espiritual é o contrário do amor próprio, virado para si mesmo, que só traz desordem e confusão. Ele ultrapassa os conflitos interiores, os artifícios que permitem disfarçar a solidão para se abrir ao universo inteiro.

Permanece próximo do outro se não queres ser perseguido pelo seu fantasma. Não te esqueças de que o amor é um sol que dispersa os maus espíritos.

Não há luta sem verdadeiro amor. Toda a acção vigorosa guiada pela bondade atravessa as muralhas mais espessas, rejeita todas as formas de escravidão, de conformismo, de condicionamento, e acaba por ser livre.

O guerreiro interior nunca trai a sua alma de criança. É capaz de chorar perante a beleza do mundo ou diante do sofrimento do homem com igual sinceridade, porque ele se mantém dentro do coração do mundo, onde nascem as auroras. Não retenhas as tuas lágrimas, que são a riqueza profunda do coração, a sua parte de sombra e de sol.

Não te escondas como a cinza debaixo da chama. Afirma a tua finalidade e sai finalmente do sono.

O desejo cego conduz inevitavelmente a conflitos, porque é sempre contraditório e sem cessar tenta opor-se. Dá um olhar ao teu desejo, uma vontade e uma direcção. Ele tornar-se-á uma arma espiritual e não uma perda de energia.

Nós aceitámos que a vida tome a forma da angústia e do desespero, que tenha um começo e um fim, que comece no nascimento e que nos leve para a morte. Esta visão traduz a doença da alma que já não sabe ver para além de si mesma. Entrincheirada na sua solidão, ela chama por socorro mas recusa-se a abrir a porta. A reclusão não existe no universo. Tens no teu espírito a chave que abre todas as portas. O amor, que é espírito de bondade e harmonia, é a chave que faz comunicar entre si todos os espaços, todos os seres, todos os mundos.

O que tu és nas tuas relações com os outros renova as forças vivas da natureza, ou impede-as de se expandir e de circular. Por meio dos teus actos, participas no movimento eterno das coisas. Tornas-te Responsável.

A dor e o amor são as duas faces de uma mesma medalha. A sua face de sombra e a face iluminada. Aprende a fazer rodar a moeda, cada vez mais depressa, como os passos do dançarino que se sucedem com enorme rapidez e nunca se imobilizam numa falsa atitude de alegria ou de sofrimento.

Os homens de sofrimento habitam na terra sem a compreender. Eles circulam por ela como espíritos mortos, separados do mundo, exilados na sua própria dor. Os seus pensamentos são pesadas nuvens carregadas de amargura e de desgostos. Não te pareças com eles. Desperta. Volta ao mundo. Recupera a estrada que conduz ao sol.

O caminho que nos leva junto dos outros nunca é fácil. Os espíritos maus colocam armadilhas e fazem nascer o medo. São os pensamentos nefastos do homem que impedem o espírito de progredir e comportam-se como serpentes na sua estrada. Tens de avançar desprendendo-te de ti mesmo, tendo só o amor como únicas armas.

A solidão é a Natureza profunda do coração, a pérola de ouro puro no centro de todas as coisas, a caverna das maravilhas onde não penetram os ladrões. Aprende a viver contigo mesmo se quiseres conhecer as riquezas profundas do espírito.

Considera a solidão como uma iluminação, uma pura luz que se alimenta de si própria, fora do mundo e, no entanto, centro do mundo.

Entre os Sioux Dakotas, o profeta construía sempre o seu tepee fora do círculo da tribo. Sozinho, ali sentado, mergulhava no futuro e provocava a visão dos acontecimentos, de todas as coisas que haviam de vir. Sozinho consigo mesmo, comunicava com os antepassados e com os espíritos da natureza. Tal como ele, constrói o teu tepee interior, longe do círculo dos homens, num lugar de silêncio profundo. Torna-te um totem vivo.

A solidão não é uma barreira que isole do mundo, não é um remédio fácil para a dor, mas sim um acto de amor lúcido, que implica a totalidade do ser.

O homem totalmente sozinho, ou seja, desprendido de tudo, comunica sem esforço com os diferentes reinos da natureza. A sua solidão humana, ameaçada, tornou-se a grande e consoladora solidão do mundo. Ele está livre dentro de si mesmo, aberto a todos.

Não confundas a solidão do homem ferido, que se retira para dentro de si mesmo para morrer, com a solidão do sábio, que desperta o espírito e purifica o corpo.

A solidão protege o homem contra si próprio. não a consideres como uma barreira, como uma fortaleza, mas antes como uma nascente.

A liberdade primeiro dá-se na intimidade do espírito, humildemente, antes de ser levada para os outros, flamejante.

A solidão é a estrada real da vigília. O homem solitário está repleto do amor dos outros. Ele trá-los consigo como uma mãe leva os filhos. Respira, cante, chora, e o mundo respira, canta e chora com ele.

Sê consciente de todos os teus actos, de todos os teus sonhos, de todos os teus pensamentos. A via espiritual exige uma atenção aguda, total. É um jogo de ilusionismo que exige que permaneçamos em vigília no mais profundo de nós próprios.

Dentro de ti estão todos os mundos sonhados pelo homem, passados, futuros e outros ainda nunca sonhados. Tudo está lá, no espaço infinito e sagrado do teu espírito. Respeita-o, sente amor por ele, considera-o como um deus, sem perder noção da tua fragilidade, levado pelo rio do tempo, rico e pobre simultâneamente.

Acreditar que fora de nós o mundo e a matéria são inanimados é um erro de percepção. Estamos tão retraídos dentro de nós próprios, tão enclausurados nos nossos hábitos que já não sabemos ver. O universo inteiro é tecido de espíritos capazes de agir, ligados uns aos outros por um fenómeno de ressonância cósmica. Somos nós que nos julgamos isolados, separados. O universo não se sente separado. ELE É.


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Cheyennes, Sioux, Comanches... Os índios da América do Norte viram desaparecer toda uma civilização intimamente ligada à Natureza e ao cosmos - a sua civilização.
Estes "preceitos de vida" recolhidos da sabedoria ameríndia, fazem hoje parte da herança espiritual legada ao mundo moderno pelos índios. É uma resposta ao sentimento de abandono do homem "civilizado" que destruiu as florestas e poluiu a água dos oceanos e dos rios, para construir uma civilização artificial e arrogante que quebrou a antiga aliança entre o homem e a natureza.

 Prefácio e organização de Jean Paul Bourre  - "Sabedoria Ameríndia"  -  Pergaminho


(Original: "Préceptes de vie issus de la sagesse amérindienne" - Presses du Châtelet, 1997, Montreal, Québec, Canada.)



*qualquer coisa de outro mundo*

domingo, 22 de abril de 2012






Já dois cadernos se passaram e nada se escreveu que valesse expor neste espaço virtual.

É difícil escrever poesia quando se quer tocar o chão com os pés e não inventá-lo com a mente.


In Civil Izado






sábado, 7 de abril de 2012

" Man is made by his belief. As he believes, so he is"- Bhagavad Gita.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O homem é menos ele próprio quando fala de si mesmo.
Dêem-lhe uma máscara e ele nos dirá a verdade.



O egoísmo é filho da vida doméstica.



Oscar Wilde

quarta-feira, 14 de março de 2012

-Se o louco persistisse na sua loucura tornar-se-ia sábio.

-A loucura é a capa do velhaco
a vergonha a capa do orgulho.

-O excesso de dor ri
o excesso de alegria chora.

-As alegrias fecundam. As dores dão à luz.

-O que hoje está provado foi ontem só imaginado.

-Dispõe-te sempre a ser sincero e o mesquinho evitarte-à.

-Aquele que tolerou ser enganado por ti conhece-te.

-Nunca saberás o que é suficiente sem saberes antes o que é o excesso.

-Escuta a censura do néscio, é um título real!

-O fraco em coragem é forte em astúcia.

-Alegrias não riem. Dores não choram.

-Não pode deixar de se acreditar na verdade dita de forma compreensível.


William Blake
Quem faz mais do que lhe é pedido nunca se esgota.
Só quem teme dar é que é enfraquecido ao fazê-lo.


Henry Miller "O Big Sur e as laranjas de Jerónimo Bosch"
Recorrer a portas que estando abertas parecem fechadas, de encostadas. O encontro é próximo, a beleza muita, mas o tempo de amanhã promete tanto no vazio que digo não ao que aqui anda como se eu, crucial à vida e não ela, a outra que, ainda há pouco, aqui estava comigo. Desperto louco de ousadias e quando o tempo pára, depois de almoço, caio eu pelas escadas do cansaço involuntário. Há espaço para procriar, noite de sedução e, no entanto, reina uma pausa agreste à produção... Queimo velas e horas enquanto e quanto posso mas o tempo por tempo continua passando impune às minhas tristezas e desilusões. Quem sou é pecado. Tenho a ser, é certo! A morte está próxima, felizmente, e assim na brisa de sentir o rescaldo da vida, a alma sorri, o coração serena e a mente aperta como quem não compreende. Haja vida e que tudo o resto morra!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Eu diria que a forma mais fácil de tornar a vida fácil
é torná-la, voluntariamente, difícil por algum tempo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O importante é deixar deus existir.
If you can be soft you’re very hard.
Os outros que vivam
Eu limito-me a existir.
Poesia é a minha religião:
Eu quando crio,
Sinto-me criado.
Se queres ser grande alia-te ao tempo.
Tem de se praticar o amor ao próximo à porrada!
Na impossibilidade de possibilitar o possível,
Possibilitasse o impossível.
A morte é o segredo legitimo dos deuses.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Pelo que me permite dizer, escuso-me de ter de entender, clarabóia minha é só um sofrimento irracional de disciplina que me liga à vida. No casulo do tempo rezo o futuro perdendo o presente e é tudo uma beleza feia que me sorri irónica a verdade, só intelectual, de existir. Preferiria olhar ao lado, não ver mas sentir o corpo a ir, sei lá onde, interagindo como se só mais um e a dor que era minha passaria para os outros e me retornaria positiva. Há tanto tempo que morro que já não sei viver… Como se fosse um tabu, um dogma, o sentir o ar sem lhe reflectir pensamento. Anseio sempre mas nada faço, e o recorrer ao pensamento é a minha forma de viver. Triste ser. Sozinho, cansado de fumar, acende outro para esquecer. Além que tem sempre forma de se entregar, entrega-se ao nada porque, diz ele, tem tudo. Um idiota portanto.
…pois tenho amor em barda
E o egoísmo supremo
Para o procriar sozinho!
Promessas singelas
Estas tuas que me deste.

E no principio da noite
Encontro-me no reverso
Da ideia essa
Que me permite ser alado
Como a nuvem,
Sem tecto ou consciência,
Perigoso do medo,
Pois viver é procura.

Ó doença essa que me come a tristeza
Metendo os restos numa gaveta do coração.

Quem eras tu, meu irmão,
Que num jogo de dados
Descobriste, sem razão,
Me mimar com tua inteligência
Como se só houvesse ontem
E o amanhã, tão certo, aqui entre nós.

Noites de diamantes
Carecem-me as palmas da mão
Em turbilhão de desconforto
Que encerra a busca no outro,
Salvação.

E na beira da morte eu olho e escrevo
Como que descobrindo a vida em cada letra
E em seguida chorar a reacção física do pensamento.

Ó deuses de todos os tempos
Rogo a vós poder infinito
Que sou de principio voador
E só por descuido do criador
Apareci aqui nu e corpo só!

Havias de me ver quando não sou.
Não sei de qual sossego o meu
Te veio apagar maior prazer
Mas fugiste de minha terra
Colonizando outra
Convertendo nativos desconhecidos em teus amigos.

Já me eras Deusa
E eu um simples dono de terras
Mas quando te juntei a mim
Corrias as persianas da casa
E só te querias ver livre dela,
Com ou sem eu.

Na altura, como deusa
Eras a meus humildes olhos,
Sorria de te poder ver,
Por vezes, como minha
E essas tuas correrias
Lá por fora
Só me cresciam
Ousadia ao te pensar.

Mas houve um dia,
Em que era já tarde,
Que te foste
E madrugada, dia e noite seguintes
Não soltaste teu terno grito de retorno.

Pensei que voltarias
E mantive
Assim uma vida casta
Até que te decidisses
A retornar a minha casa.

Ainda hoje te espero
Embora que te já não acredite retorno.
E ciente que tudo isto
Um grande meu sonho,
Te espero ainda como poderia,
Com um muito menor sabor,
Esperar essa antiga e derradeira morte.

Vivo para te ver chegar
E sabendo que não chegas
Como que me acalma a alma
E aquece a cama
Pois sem ti descobri
Como viver contigo.
Energia a mais faz
Com que qualquer pensamento ou emoção
Ganhem tamanhos colossais,
Em parte, maiores que eu.

Porque vivo possuído, deixo-me andar
Por onde o vento me entende
E lembro-me da cultura de meu passado
E passo bem o presente.

Mas com tempo a seu tempo,
E concreto movimento que me tenho
É a expressão matemática dessa equação.

Acaso, fico-me empastado em antecedência de morte
Por preponderante recusa de vida.

Ai, pensamentos intrigados
Renovam pausa essa de racionalidade pretensiosa,
Quando é a raiva dessa puta de vida louca
Que dá frutos mais que lindos
Porque não cuidados,
Nascem sozinhos.

Reconheço uma punheta de responsabilidade no que escrevo
E o resto é escrito pelas circunstâncias, ambiente.

A vida é um fim em si mesma
E só o sonhar
Vive esta mortalidade com honra e coragem,
Cara de selvagem.

Depois o esforço
É pôr o sonho em dia e à luz do dia.
Dar-lhe vida, simplesmente
Porque é o dever de quem cria.


O amor é bem mais extenso que uma só vida,
Façamos amor com o mundo, sem medo,
E se manifestará o Mundo aos olhos de quem sonha a vida
E vive a sonhar.

Os Deuses já pisaram a terra em tempos ancestrais
E esses não a prensavam,
Pisavam como uma carícia
Pois seu peso era-lhes consciente.

Hoje é só manadas de trabalhadores inconsequentes
Pisando o chão sem qualquer noção
De que são.

Ah, vamo-nos juntar aos Deuses!
Dar-lhes vida, por nossa já tão vivida!

Façamos amor,
Não para nascerem putos
Mas nascerem possibilidades, sonhos e mundos!

Liberdade jorrada por ejaculações altas,
Abraçadas por esse ventre menino
De mulher fértil!

Ai, o deixar de tanto pensar
Para poder em silencio partilhar nossa terrena
Emoção por quem nos está próximo sem senão.

Colher o que há e sorrir,
Porque há, e por haver, acontece.

Que complicada será a vida se a certeza
É que se vive e se há de morrer?

Tranquilo.
Todos antes de nós o fizeram
E todos o hão de fazer.
Unimo-nos na morte
E assim a morte é a derradeira Mãe,
A quem todos devem o privilégio da vida.
Ligada a ramos
De suplicio de lua
O encarnado se dissolve
E pasta-se na tela
Negro como a noite.

Ah, maravilhas de comer sentimentos
Que se cheiram dengosos a mexer.
Pedras, que não pesam, brilhantes
Que iluminam o caminho, aceso, sozinho.

Que honra o fazer o que me apetecer,
Querer o que se pode ter
E o buscar sem mal dizer.

Famílias sentadas a comemorar o jantar
Que corpo e alma agradecem.

Depois, casa, televisão.
Em breve o sono para restabelecer um mais dia.

Concreto e simplório
Reconhece a veste curtida
Que me aperta em saída.
(Pouca, pouca é certo…)

Corrida a cortina de quem vê,
Vê-se quem passa
E fala-se a quem olha
Porque hoje apetece comunicar.

Graça, aquela menina
Que engraça comigo
E eu que me acho um zero
Nervoso de meu enleio
Mas nele ajo em cheio.

Quais promessas e ilusões?
Ontem aqui estive
E hoje o estou,
Amanhã sim levarei pancada para cá não estar
Pois criava aqui já raízes de um outro lugar.


Vejo o longe perto
E é-me seguro assim
Embora que o incerto seja
A segura certeza que se vive
E se está atento.
Felizmente acompanhou-me até casa, escovou-me e disse que era um menino bonito. Fiquei a olhar-lhe as pernas até onde a saia o permitia, e sorri e gani para que ela viesse uma vez mais, mas não veio. Passei pelo quintal tentando encontrar algo para fazer mas nada havia que me esquecesse da namorada do meu dono. Devem andar lá em cima a pinar, pensei eu. O que se faz quando não se tem nada para fazer? Sendo um cão, dorme-se.
Além tempo de comunhão
As asas a pousar na mão dela.
E eu no sangue da vida
Sorrindo, encantado.

Hoje a nobre velhice insensata
Para adquirir o que não já mereço,
Veneno do ousado.

Vestes escuras e cara magra.
O corpo dorido de dores cerebrais
E a canção do sol só dá
Quando escreves,
Não é meu velho?

Juventude espremida.

Não sei…anseio ser velho.

Gosto da lentidão, do frio,
Do cansaço e da desculpa fácil
De poder dizer: “estou velho”.

É algo muito católico,
Devia-me ofender com isso
Mas assim sinto
Assim digo.

Só sei quando algo está certo
Quando o sinto antes de o fazer ou ser.

Sentir é a dádiva dos Deuses,
Como costumo dizer.

Não o ir às cegas
Que é só uma partida da formiga humana.

Nesta existência ou se serve a si como
Ser racional e individual
Ou se serve Deus,
Que pode ou ser um Deus exterior
Ou que tem porta-voz dentro de nós mesmos.

Há maneiras infinitas de ser quem se é
Mas é a que se escolhe
Ou pela qual se deixa ser escolhido
Que realmente vai ter valor em crer.
A morte é um belo Deus
Porque se não deixa conhecer,
Permite-se a ser inventada.